QUADRINHOS BRASILEIROS -
INIMIGOS DA HQ-BR
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Canalha de verdade é o ex-editor picareta
José Pereira, que não foi citado no texto ao lado, e a quem o Ota
retratou como um vilão, nos seus quadrinhos, como pode ser visto no
divertido desenho que ilustra esta páginas. |
Este texto, apesar de antigo, (foi publicado há quase 10
anos atrás, no fanzine ZAT, editado por Emir Ribeiro), continua relevante, e por
isso estamos, republicando seu texto aqui na CQB. Apesar das
citações a personagens, autores e editoras estrangeiras, é, para quem ainda não
teve a oportunidade de ler, uma boa chance para se entender como funciona o
meio editorial no Brasil, em um levantamento bastante amplo feito pelo Paulo. Por esses motivos, não
podíamos deixar de republicar.
A HISTÓRIA SECRETA DOS EDITORES BRASILEIROS
(Por Paulo Campos)
EDITORES DA ABRIL
A Abril foi praticamente a primeira editora a adotar o formatinho para revistas
de linha. Fazia sucesso com o material da Disney e Maurício quando resolveu
também publicar heróis Marvel, em 1979. Fez uma tremenda lambança com os
super-heróis, remontando, cortando, censurando. Mas a versão Marvel da Abril era
atraente para os leitores, em especial os mais jovens. A equipe de adaptadores e
tradutores colocou os heróis falando como gente de verdade. O leitor recente não
deve se lembrar, mas, até então, as traduções da Marvel feitas pelas outras
editoras eram acadêmicas (EBAL por exemplo) ou avacalhada com gírias em demasia
(Bloch). Apesar dos cortes e diálogos suprimidos, a Abril soube dosar a tradução
arcaica com a prafentrex, colocando a turma do Homem-Aranha falando a língua do
leitor, a linguagem da rua. E com bom letreiramento para arrematar, tornando a
leitura agradável e simpática - o que atraiu muitos leitores,principalmente os
mais jovens.
Mas isso de modo algum justificava os cortes e lambanças dos editores daquela
casa. Páginas remontadas, cores chapadas e berrantes, páginas redesenhadas, etc.
Pra piorar, tinha um editor-chefe que era crente e saía censurando a torto e a
direito. Proibia palavrões nas histórias. A personagem Tara (da série The
Warlord, o Guerreiro) teve que mudar o nome pra Dara. Em Demolidor, a personagem
Karen Page usou seringa pra se drogar. O tal editor xiita evangélico obrigou os
desenhistas a redesenhar a seringa, redesenhada como uma... navalha. Para
arrematar, o tal "irmão cajazeiro" proibia a menção do nome Moebius na "Casa das
Idéias".
O editor das primeiras revistas Marvel da Abril foi Hélcio de Carvalho, que os
puxa-sacos de plantão chamam de "o Stan Lee brasileiro". Depois vieram outros
como Sérgio Figueiredo, Leandro Del Manto e Jotapê (isso é nome?). Este último
pelo menos teve a coragem de assumir as lambanças que fez. O Figueiredo, dando
uma de bom moço, tenta dizer que as revistinhas Abril não sofrem mais cortes nem
remontagem. Conversinha pra boi (e marvetinhos aloprados) dormir.
EDITORES DA RGE (atual GLOBO)
Esse papo que só a Abril desrespeitou os leitores com seus cortes e remontagens
é conversa. A RGE também aprontou das suas, num total desrespeito ao leitor,
metendo a tesoura no Flash Gordon e Fantasma.
Nesse último ficou famosa aquela remontagem da hq de Rip Kirby (Nick Holmes),
personagem que foi retocado para parecer o Espírito que Anda, quando o material
inédito do herói havia acabado. Flash Gordon também teve o mesmo destino,
retocado como Mandrake. O mesmo aconteceu com Durango Kid, sendo publicado como
Cavaleiro Negro e por aí a fora.
Falando em Fantasma, segundo consta, quando faltava material de The Phantom, a
redação da RGE pegava um ingênuo desenhista qualquer e dava uns trocados com a
promessa de que "você será o novo desenhista do
Fantasma, sucedendo
Ray Moore, Wilson MacCoy e Sy Barry". O
desenhista iniciante, ávido por publicar seu trabalho, caía na conversa mole.
O melhor desenhista nacional do Fantasma foi sem dúvida o veterano Walmir
Amaral, ótimo artista que os editores brasileiros dispensaram, e hoje se
encontra desenhando livros didáticos pra cursinhos de inglês.
Atualmente, o editor de quadrinhos da casa (agora Globo) é Leandro Luigi Del
Manto, vindo da Abril com sua mania obcessiva de Marvel/DC, dando um chega pra
lá nos heróis da King Features. Se deu mal ao publicar os super-heróis da Image,
pois os leitores antigos torceram o nariz e os mais novos não compraram.
Ha, ha, ha, ha! Acabou cancelado!
EDITORES DA BLOCH
A Bloch Editores (que publica a ridícula Manchete) começou nos quadrinhos
publicando Marvel. Seu editor foi Edmundo Rodrigues, aquele mesmo, do JERÔNIMO,
O HERÓI DO SERTÃO, que promoveu remontagens e lambanças mil. Achava que o
formatinho diminuía muito os quadrinhos, daí aquela idéia horrorosa de ampliar
os quadros, tornando visíveis os borrões.
Quando a Bloch perdeu os direitos dos heróis Marvel, Edmundo começou a publicar
quadrinho nacional, principalmente terror estilo anos 50, gênero jurássico que
ele adora. Sua gestão nessa fase foi marcada por denúncias de picaretagens e
falta de ética, principalmente as feitas pelo Ofeliano de Almeida (criador do
Leão Negro), que xingou Edmundo de tudo quanto é nome.
EDITORES DO JORNAL DO BRASIL
Para quem não conhece, o "Jornal do Brasil" ("JB") é um diário do Rio de
Janeiro que sofre há muitos anos dificuldades financeiras, ao ponto de operar
no vermelho. É um jornal que adora dar uma de bonzinho, defensor da ética e da
democracia e da liberdade, etc (aquela conversa fiada que você já conhece), mas
que não hesitou em censurar CHICLETE COM BANANA do Angeli. Outra tira de
quadrinhos, ZARZAN do Cláudio Paiva, foi cancelada e seu autor despedido
porque,sem querer, ele colocou o nome "O Globo" (principal concorrente do "JB")
no jornal que o protagonista de ZARZAN estava lendo na tira de 21/01/1984. a
diretoria do "JBesta" não perdoou a piada involuntária e mandou o departamento
pessoal fazer as contas do autor.
EDITORES DO JORNAL O GLOBO
"O Globo", também do Rio, segue o mesmo esquema conservador/censor do "JBesta".
A diferença é que "O Globo" não opera no vermelho e é praticamente um jornal
assumidamente conservador, ao contrário do "JBesta", jornal conservador não
assumido que adora dar uma de bom-moço.
Talvez a melhor seção do "Globo" tenha sido a página de quadrinhos, seguindo o
estilo dos diários americanos. Aos domingos, publicava o suplemento dominical,
"O Globinho". Os leitores adoravam, tanto que muita gente, assim que comprava o
jornal, ia direto às páginas de quadrinhos. Em meados dos anos 80, patrulhado
pelos defensores dos quadrinhos brasileiros, o jornal resolveu investir em tiras
brasucas.
Em 1986, cogitou-se publicar SARNENTO, O FISCAL DO REI, de Ofeliano, sobre um
cachorro que farejava inflação onde quer que ela estivesse (parecido com o
SIRNEY, do Novaes). Como era uma sátira ao famigerado Plano Cruzado, "O Globo"
recusou-se a publicar, pois o jornal era (e ainda é) comprometido com o Sarney.
Ofeliano fez uma contra-proposta e apresentou O LEÃO NEGRO (em parceria com
Cynthia) ao editor de HQ do jornal, Gilson Koatz. A tira, publicada em
preto-e-branco e em formato dominical colorido, foi um sucesso, principalmente
entre as meninas que recortavam as tiras para colá-las no caderno escolar.
Infelizmente, Koatz e Ofeliano, com o passar dos anos, se desentenderam e O LEÃO
NEGRO foi cancelado.
Nenhuma outra editora se interessou em assumir o personagem (achavam que só
Marvel vendia). Ironicamente, Portugal publicou O LEÃO NEGRO, pela Meribérica,
em forma de álbum de luxo, chegando a ser elogiado na Europa.
Pouca gente sabe, principalmente os leitores mais novos, mas Roberto Marinho
adora histórias em quadrinhos, a exemplo de Adolfo Aizen. Dr. Roberto tinha
muito orgulho da página de quadrinhos publicada no "Segundo Caderno". Tanto que
chegou a afirmar que, enquanto vivesse,"O Globo" publicaria sempre a página dos
quadrinhos. Mas, nos anos 90, Dr. Roberto, devido ao cansaço (está na casa dos
90 anos)*, começou cada vez mais entregar o controle do seu jornal para os
filhos, que pouco ou nada entendem de quadrinhos. Eles resolveram então acabar
com a página diária de HQs para publicar, em seu lugar, horóscopo e uma série de
bobagens, sob protesto dos leitores.
Pra piorar, "O Globo" passou a publicar, aos domingos, uma seção chamada "Rio
Fanzine" (só no nome, pois de fanzine não tem nada), com o intuito de alienar
ainda mais o aborrecente carioca, divulgando rock e quadrinhos da Marvel
(cultura é isso aí!). A coluna é comandada por Tom Leão que, apesar de marmanjo,
age como aborrecente alienado. Tem também a coluna de cinema da sofrível Ana
Maria Bahiana, dondoca lobista do Tom Cruses (sai, viado!), James Camarão
(aquele que só sabe fazer blockbuster), Júlia Roberts (uma linda piranha) e o
florzinha
Leonardo Di Capado (ai, santa!).
AGÊNCIA COMMU
Agência pirata/picareta belga, que no final dos anos 80, tentou se aproveitar
dos incautos quadrinhistas brasileiros - ávidos por publicar seus trabalhos no
exterior - oferecendo-lhes um contrato de natureza duvidosa pra publicar na "Zoropa".
Muitos dos que assinaram se arrependeram depois, acusando a Commu de dar o cano
em todo mundo. É o tal ditado: "Enquanto houver otário no mundo, malandro vive".
REVISTA HERÓI
"Herói" é uma das revistas mais alienadas de todos os tempos.
Dirigida a aborrecentes, foi criada por dois jornalistas obscuros da Folha de
São Paulo, Rogério de Campos e André Forastieri. O primeiro, por exemplo,
escrevia asneiras mil, criticando HQs de Fellini e o trabalho de Moacy Cirne. Os
caras só sabiam elogiar X-Men, ao ponto de receberem duras críticas de
desenhistas brasileiros, como Angeli. A intenção da "Herói" é clara: com jabá
rolando a torto e a direito, a revistinha está comprometida com distribuidoras
de filmes e com a Editora Abril para veicular determinados filmes e revistas. O
jovem leitor, ingênuo, vai lá pra conferir, enriquecendo a panelinha.
EDITORA RECORD
No início dos anos 90, decidi me profissionalizar como artista gráfico, mas
desisti devido ao mercado fechado (era Collor). Virei, então, comerciante, que
dá mais dinheiro, sendo que atualmente desenho só por prazer.
Pois bem, na época, a Record editava uma revista de contos chamada "Isaac Asimov
Magazine", ótima, por sinal, que estava precisando de ilustradores. Arrumei meu
portfólio e marquei entrevista para uma tarde de verão, com São Cristovão
beirando os 40 graus. Lá chegando, para minha surpresa, constatei que a redação
da "Isaac Asimov Magazine" funcionava dentro da redação da "Mad". Já comecei a
ficar receoso, pois sabia que lá quem mandava era o Otacílio D'Assunção (Ota),
aquele que se auto-intitula "Idi-Ota" e age como tal. Mas acabei sendo recebido
(e bem) por membros da redação, muito simpáticos e profissionais. Eles realmente
gostaram do meu trabalho, mas me avisaram que eu tinha que apresentá-lo mesmo
era pro Otacílio, que dava a palavra final.
Fiquei mais receoso ainda, pois quem manja do mercado de HQs sabe que o Ota tem
fama de maluco, estourado, porra-louca. Pois bem, após tomar um chá de cadeira à
sua espera (estava no almoço), comecei a escutar uma voz fanhosa vinda do
corredor gritando todos os palavrões possíveis: "Porra, #%*! Quem foi o !#%* que
mandou a boneca errada para a gráfica?". Pensei: "Com que estado de espírito
esse cara vai ver meu trabalho?". Fui anunciado pela secretária àquela figura
cabeluda e barbuda (que nem dava pra ver o rosto). Ele olhou pra mim e
resmungou: "Que é, que é?", com sua voz fanha. Pediu que esperasse um pouco e
começou a dar esporro em todo mundo por causa da tal boneca, Até o office-boy,
que nada tinha a ver com o peixe, não escapou. Pra arrematar, ainda reclamou:
"Cadê meu café? Vocês sabem que depois do almoço gosto de tomar um café, porra!"
Realmente, uma figura esse Ota!
Mas o Otacílio eu perdôo, pois ele é mais digno de pena do que castigo. Além do
mais, sempre deu uma força pra HQ nacional, a seu modo. Mas na época, fiquei
puto com ele. Resolvi relatar tudo que aconteceu à diretoria da Record através
de carta. Pensei que não ia dar em nada, era mais um desabafo e questão de
consciência. Mas, para minha surpresa, recebi resposta da Record, numa carta
informando que a diretoria lamentava o ocorrido, e me convidava para
reapresentar meu portfólio, dessa vez para Adélia Ribeiro, a nova editora de
arte da "Isaac Asimov Magazine".
Adélia, mulher simpática, bonita e de bom nível, me explicou na nova entrevista,
que a diretoria leu minha carta e, como já não ia muito com a cara do Otacílio,
decidiu puni-lo afastando-o da "IAM". Minha carta havia sido a gota d'água.
Adélia me explicou ainda que, ao saber da dispensa, Otacílio ficou puto e, num
de seus típicos descontroles emocionais, jogou uma cadeira em cima da pobre
Adélia.
Final da história: uns dois meses depois, a "IAM" acabou sendo cancelada devido
às fracas vendas (revista de contos não dá certo em país analfabeto) e meus
desenhos não foram publicados.
Recentemente, encontrei casualmente o Otacílio em uma gibiteria, mas ele não se
lembrou de mim. Aparentava mais tranquilidade, com o cabelo cortado, barbeado e
de óculos fundo de garrafa. Nos cumprimentamos educadamente.
EDITORA ESCALA
A Escala é uma editora que nunca definiu muito bem sua linha de quadrinhos.
Anuncia lançar uma nova safra de HQs e depois pára, sem maiores satisfações.
Depois, recomeça de novo. Recentemente, inundou as bancas com uma série de
magazine sobre quadrinhos e ficção-científica, dando ênfase a (adivinhem!)
Marvel/DC/Image. Alguns títulos "Comics Generation", "Showmix", "Topcomics",
etc. Todos variações da infeliz "Wizard".
De uns tempos pra cá, pra dar impressão que é uma editora preocupada com
quadrinho nacional decidiu puxar o saco da panelinha Deodato Filho, Roger Cruz e
Marcelo Campos (panelinha não por culpa desses desenhistas, mas sim por causa
das "Wizards" da vida, que só dão valor pra quem publica lá fora).
Os dois primeiros têm coluna fixa nas revistas da Escala.
Deodato não tem muita coisa pra dizer.
Cruz, me contam, virou "star" e vive de nariz empinado para os fãs, reles
mortais. E olhe que ele não está com essa bola toda.
Campos, esse não dá pra entender. Reclamou que os garotos de hoje não entendem o
trabalho de Kirby, Eisner, Colin e pior, riem deles. Campos lamenta que esses
marvetinhos aloprados só sabem ver heróis anabolizados pela frente
(homossexualismo enrustido?). Mas esquece que ele é um dos responsáveis pela
proliferação desse tipo de quadrinho.
Por que, em vez de ficar chorando, não faz que nem o Emir {Ribeiro} e alerta os
mais jovens contra os heróis anabolizados? Bem, pesquisa feita há alguns anos no
Rio de Janeiro revela o que todo mundo já sabe: o jovem carioca é alienado.
Acredito que o jovem brasileiro é alienado. A Escala sabe disso. Dá dinheiro!
É isso aí amiguinho! Isso que você acabou de ler é só a ponta do iceberg. Mas
como não foi nossa intenção esgotar o assunto, ficamos por aqui. Ciau!
*Na ocasião em que o texto foi escrito, Roberto
Marinho ainda
era vivo.
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